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Oscar 2017: Análise de Moda de Um Tapete Vermelho Sofisticado e Político

2 de março de 2017

O Oscar 2017 fez História: teve mais abertura à diversidade, provavelmente como resultado da campanha #OscarSoWhite, com maior número de profissionais negros indicados e também vencedores; teve erro na homenagem aos profissionais do Cinema que morreram no ano anterior, o vídeo “In Memorian”, onde colocaram a foto de uma profissional que está viva; e teve o gravíssimo e constrangedor erro de troca de envelopes na entrega do prêmio de melhor filme (a categoria mais aguardada), fazendo a estatueta ser entregue primeiro para a equipe de “La La Land: Cantando Estações“, e depois, em reparo ao erro, para o verdadeiro vencedor “Moonlight” . Tal qual aconteceu na cerimônia do Miss Universo, lembra? O que, inclusive, gerou memes como esse:

Mas o fato mais importante é a vitória de “Moonlight”, um filme independente, fora dos padrões Hollywoodianos, de baixo orçamento, com equipe majoritariamente de negros e que retrata um personagem negro, pobre e homossexual (ou em descoberta de sua sexualidade). Um filme lindo, que merece esse reconhecimento e merece ser visto pelo maior número de pessoas possível, o que pode ser facilitado com a marca de ter ganhado o principal Oscar da noite e também nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali – que além de negro é o primeiro muçulmano a ganhar esse prêmio.

O tapete vermelho também não ficou de fora de novidades interessantes. Algumas personalidades, como a atriz Ruth Negga (indicada ao Oscar de melhor atriz por “Loving”), Busy Philipps e a modelo Karlie Kloss, fizeram do desfile uma forma de agirem politicamente e usaram um laço azul como símbolo de solidariedade à União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, na sigla em inglês), organização que atua contra medidas adotadas pelo presidente Donald Trump.

Ruth Negga, de Valentino, feito especialmente para ela.
Busy Philipps
Karlie Kloss, de Stella McCartney

Emma Roberts usou um vestido vintage da marca Armani, divulgando o programa Red Carpet Green Dress, que incentiva o uso de matéria-prima reciclável na moda, conscientizando sobre a sustentabilidade. Afinal, o descarte irresponsável tem causado grandes problemas ambientais e sociais. Repare que, apesar de vintage, o modelo é atualíssimo e muito sensual. A atriz indiana Priyanka Bose também apoiou e divulgou o programa, usando uma peça eco-friendly Vivienne Westwood.

Para se qualificar como uma peça de vestuário eco-consciente, ela deve ser feita de materiais reciclados, orgânicos ou reutilizados, usar detalhes artesanais ou incorporar processamento de tintura natural. Todos os recursos do programa se concentram em um projeto ambientalmente e socialmente responsável com um impacto negativo mínimo sobre o meio ambiente.

Emma Roberts, de Armani.
Pryanka Bose, de Vivienne Westwood

Emma Stone, vencedora do prêmio de melhor atriz por “La La Land: Cantando Estações”, e Dakota Johnson, uma das apresentadoras convidadas, usavam broches em apoio à Planned Parenthood, organização voltada ao auxílio em saúde reprodutiva para mulheres, em sua maioria, de baixa renda. Um apoio discreto, mas significativo, já que o tapete vermelho do Oscar é de grande visibilidade. Dakota usou o broche na clutch acetinada e Emma no decote do vestido. Ambas se vestiram de dourado dos pés à cabeça e fizeram a linha vintage, glamour Old Hollywood, cada uma à sua maneira (uma romântica, de Gucci, e a outra mais sexy e jovial, de Givenchy).

Ava DuVernay, diretora que concorria na categoria Documentário por “A 13ª Emenda”, usava um vestido de Ashi Studio, e disse em seu Twitter: “Um pequeno gesto de solidariedade. Eu escolhi usar um vestido assinado por um designer de um país majoritariamente muçulmano”. Seu modelo estava, inclusive, alinhado às fortes tendências presentes neste tapete de mangas compridas, gola alta e renda. Seu cabelo num penteado maravilhoso combinava em tonalidade de cor com a maquiagem.

Ava DuVernay

Ainda na questão de relações internacionais, a refugiada síria Hala Kamil, personagem real do filme “Watani: My Homeland”, indicado na categoria Documentário de Curta-Metragem, conseguiu comparecer ao evento, depois da incerteza dessa possibilidade, já que Donald Trump havia proibido a entrada de refugiados sírios nos Estados Unidos. Sua vestimenta – hijab – é da marca Brandon Maxwell. O styling foi assinado por Jamie Mizhari, stylist da Katy Perry. Ela estava muito elegante, além de  inovar ao fazer uso de veludo. Lembrando que lá nos Estados Unidos é inverno, portanto, além de bonito, o veludo é prático para ajudar a manter o corpo aquecido. A cor escolhida, roxo, é a cor que representa sua flor favorita, segundo conta o designer em seu Instagram, que parece ter tido um cuidado muito afetuoso com sua cliente.

Hala Kamil (Foto: REUTERS/Mario Anzuoni)

Jackie Chan, embaixador da Chengdu Panda Research e Breeding Base, desde 2009, tem defendido a proteção de pandas ao longo de sua carreira e neste tapete vermelho aproveitou para chamar atenção para sua causa, posando com pandas de pelúcia. Segundo entrevista concedida ao Entertainment Weekly, os pandas de brinquedo são vendidos na internet para arrecadar fundos para a campanha.

Jackie Chan

Então, pode-se dizer que o tapete vermelho, além das questões comerciais e de marketing envolvidas e de servir como inspiração para os vestidos de festa do “mundo real”, está ganhando uma nova “função”: o de visibilidade e conscientização para as causas sociais, ambientais e políticas. Esse movimento de moda com mais consciência vem crescendo entre as pessoas há algum tempo e no tapete vermelho foi reforçado (e muito comentado) principalmente quando as atrizes lançaram a campanha #AskHerMore contra o machismo nas entrevistas, na temporada de premiações de 2015. O objetivo era cobrar dos repórteres perguntas interessantes às mulheres em eventos de Hollywood, já que os colegas homens costumam receber perguntas relacionadas a carreiras e papéis nos filmes, enquanto que para elas, sobram questões apenas sobre vestidos, penteados e dietas. Nesse mesmo ano, a atriz Patricia Arquette, premiada como melhor atriz coadjuvante por “Boyhood”, fez um dos discursos mais importantes da história do Oscar ao reivindicar a igualdade de direitos e de salários para as mulheres. Uma pena que na questão de gênero, o Oscar 2017 tenha falhado, já que nenhum filme dirigido por mulher foi premiado.

Dito isso, vamos ao que apurei como características marcantes nas escolhas dos looks desse ano, além do uso da roupa como manifesto:

Cores: Branco, nude, dourado e prateado são sempre usados em eventos de gala e dessa vez não foi diferente. Nota-se que o tom de nude da temporada foi o champanhe, que tem fundo rosado. Destaque também para o vermelho e o preto;

Tecidos/Texturas: Veludo em tons escuros (preto, azul e verde), rendas (coloridas ou monocromáticas), estampas ou detalhes 3D, franjas (principalmente em vestidos que remetem aos anos 20) e plumas;

Modelagens: mangas compridas (que são uma ótima opção para o inverno ou para mulheres maduras que não gostam de expor os braços), gola alta, estilo vintage (vitoriano, “old Hollywood”, “new look” da Dior…) e vestido coluna.

Meu look favorito foi da Janelle Monáe, atriz de “Estrelas Além do Tempo” e de “Moonlight”, vestindo Elie Saab com acessórios lindos e uma maquiagem iluminada incrível. Esse é o tipo de produção ame-a ou deixe-a, pois é bem dramática e cheia de informação. Mas, poxa, estamos falando do tapete vermelho mais glamouroso de todos! Looks com emoção são importantes. Desde que harmônicos e elegantes, são eles que mais nos fazem suspirar, nos fazem visualizar o trabalho artesanal e todas as possibilidades da alta costura fora do ambiente restrito e efêmero das passarelas. E Janelle tem um estilo fashionista e ousado que segura muito bem looks desse nível. Ela uniu as tendências de gola alta, bordados/estampa 3D, a cor preta e estilo vintage – de nobreza mesmo – da saia e joia de cabelo. Uma rainha vitoriana moderna. Veja só:

O segundo look da Janelle (para a festa pós-Oscar da Vanity Fair) também é muito interessante. Assimétrico, moderno e com referências ao street style. Ambos os vestidos dialogam entre si:

Janelle de Alexandre Vauthier

E por falar em “Estrelas Além do Tempo”, veja que linda imagem do elenco do filme junto da Katherine Johnson, ex-NASA e uma das personagens que inspiraram o filme (de azul):

Sobre os looks pretos, repare que os três primeiros têm perfume vintage, cada um de uma época específica. Já os outros se assemelham nos detalhes de transparência e na saia levemente rodada, com movimento. Todos eles com destaque para o colo e braços à mostra (ainda que alguns deles sejam mostrados através de transparência).

Os coloridos: A começar por Taraji P. Henson, atriz de “Estrelas Além do Tempo”, elegantérrima num vestido Alberta Ferretti sereia de veludo azul. Colar que desenha o colo junto com o decote, maquiagem e penteados em perfeita harmonia. Uma das mais bem vestidas, numa simplicidade sofisticada e sexy. Bem fiel ao seu estilo mulherão.
Taraji P. Henson
Destaque absoluto para Viola Davis, musa, diva, mulher empoderada, inspiradora e que ganhou seu primeiro Oscar (atriz coadjuvante) pelo papel em “Um Limite Entre Nós”. Viola sempre usa cores fortes e quase sempre foca no colo e nos braços, pois é uma região muito bonita de seu corpo, que deve mesmo ser valorizada.
Viola Davis (Photo by Frazer Harrison/Getty Images)
Dourados/Prateados/Brilhosos: o mais interessante de todos os dourados (amigos da estatueta), é o vestido da Emma Stone, ganhadora do Oscar de melhor atriz, que associado ao cabelo e maquiagem, fez a rima perfeita com sua personagem em “La La Land: Cantando Estações”, apaixonada pela Hollywood clássica e seu glamour.
Emma Stone, de Givenchy
Um movimento lindo…

Brancos/Nudes/Tons claros:

Alguns destaques de beleza:

E os homens? A tendência mais observada foram os smokings azuis e os ternos brancos.

No geral foi um tapete vermelho muito sofisticado, sem grandes erros e looks polêmicos. Boa dose de looks dramáticos e também de minimalismo. Só de constatar o fim do uso exagerado de tule ilusion já fico bem feliz. Então, finalizo aqui mais uma cobertura especial Oscar. Espero que tenha gostado! Se quiser comentar, perguntar ou sugerir algo, fique à vontade!

Fotos retiradas de: The Guardian, EW Online, Business Insider, US Magazine, Vogue Magazine, Vanity Fair –

 

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